23/04/2017

Uma carta na madrugada

E hoje me bateu uma saudade de escrever pra você, afinal, existem meses que não paro pra pensar em você. Chega a ser bem engraçado, mas antes era tão frequente e doloroso. Hoje não falo de você com a frequência que falava, não consigo nem falar direito, acho que sua lembrança caiu no esquecimento diário mas vive nas lembranças do coração.
Esses dias lembrei que em 2012 você falou sobre fazer cinco anos de nossa 'amizade' e então lembrei que esse ano faria dez anos.
E o que rolou nesses dez anos, não é mesmo? Não, eu ainda não parei de comer carne, ainda não me formei na faculdade, ainda não tenho filho, ainda não mudei pra Gramado, ainda não publiquei um livro, ainda não visitei o museu, ainda não fiz tantas coisas que eu sonhava.
Mas eu andei de avião, eu casei, eu bebi pitu, eu me arrisquei num relacionamento sem futuro, eu aprendi uma nova paixão que é criar coisas e desenhos, eu adotei vários gatos, eu me tornei professora de crianças, eu não reclamo mais de ter que ir ao médico.
Mas eu ainda não conclui o tratamento da depressão, também não me arrisquei em pensar em uma outra faculdade sem ser jornalismo.
Essa madrugada lembrei de quando você conseguia código dá Tim pra mandar SMS sem gastar os poucos créditos que tínhamos na época de adolescente, só pra saber se às 3h eu já estava dormindo ou ainda estava mexendo no meu casaco azul e chorando sem saber o que seria de mim.
Olha, eu ainda mexo no casaco e ainda choro, mas não tem mais nenhum SMS, ou como é comum hoje, uma msg via whatsapp (que você nem chegou a conhecer) pra saber se dormi, se tô com medo, se preciso falar de bolsas ou de personagens fictícios.
Quem me ver falando assim nem imagina o quanto eu odiava suas falhas, suas manias absurdas e sua constante mudança, mas nós sabíamos como minha depressão e sua bipolaridade nos afetava e nos protegia.
Um dia, meu bem, quando eu tiver uns filhinhos bochechudos, eu vou falar pra eles de você, de quanto você era insuportável e mesmo assim amável. Nunca vou te esquecer completamente e esteja você, hoje, num bom lugar e que, se possível, olhe por mim aqui em baixo.

Eu te dedico, seu intruso!



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